
Poder transformador
Marcelo Soares de Andrade
Beto Magalhães/EM/D.A Press
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Garoto participante de oficina de arte-educação se concentra antes de apresentação em Divinópolis |
O escritor Alcione Araújo, no livro Pé na estrada, fala sobre a separação tangente entre cultura e educação, chamando a atenção para a capacidade transformadora e integradora da arte. "Sonho com um Brasil no qual a educação e a cultura sejam entendidas como frutos da mesma árvore sagrada do conhecimento", escreveu ele.
Essa é a essência da vida, pois não há diferenças essenciais entre cultura e educação. Elas coexistem de forma intensa e complementar. A forma de aprender a olhar permite a ampliação do ato de se posicionar no mundo.
Respiro arte desde que nasci. Essa história vem desde meus 5 anos, ao ganhar um "cinema" de meu avô paterno, na pequena cidade mineira de Cajuri. Desde então, meu envolvimento com a cultura foi imediato e permanente, passando do cinema ao teatro e até por participações como coroinha das missas, com suas cantorias e declamações, esse maravilhoso espetáculo teatral. Por outro lado, o avô materno me munia de livros desde os 10 anos. Grandes obras de Shakespeare, Alexandre Dumas, Monteiro Lobato, José Mauro de Vasconcelos e Jorge Amado.
Em Viçosa, passei a ensinar matemática. Foi o momento em que vivenciei de perto o verdadeiro poder transformador da arte. Comecei a fazer a leitura de poesias e crônicas no início das minhas aulas, o que relaxava a tensão causada pela matéria. Com isso, a emoção aflorava, os sentimentos fluíam e a criatividade se manifestava. O resultado foi estarrecedor: 95% de aprovação. Acabei convidado pelo prefeito de Viçosa, meu ex-aluno, para assumir a Secretaria de Cultura da cidade. Uma ousadia, que aceitei com a condição de criar oficinas artísticas para jovens das escolas públicas. Queria levar a outras camadas da população o que havia aprendido nos colégios particulares em que trabalhei: o grande poder transformador da arte aliada à educação.
O fazer artístico traz brilho aos olhos. Trabalhada em escolas por meio de oficinas, a arte transforma totalmente o ambiente. Infelizmente, essa interlocução da arte com a educação não é prioridade de instituições de ensino. Reflexo da realidade do país - a cultura ainda não tem a importância devida. O que se vê é o volume elevado de informações chegando de todos os lugares e em ritmo tão acelerado que os jovens não sabem como absorvê-las. A arte tem o poder de mudar esse cenário, pois dá prazer aos alunos. Ajuda o estudante a se centrar, a desenvolver o conhecimento e a refletir. O fazer artístico proporciona o encontro de cada um com o seu eu interior. Ao saber o que verdadeiramente queremos, passamos a pensar melhor. A arte depura o olhar.
O físico Marcelo Gleiser, no livro Conversa sobre a fé e a ciência, escrito em parceria com Frei Betto, coloca a arte como uma forma de reinventar o humano, de ampliar o alcance nacional, racional e espiritual. Sem ela, a gente vira máquina. Nas escolas e na vida, as pessoas estão virando máquinas, perdendo a conexão consigo mesmas, afastando-se de seu eu criativo. A arte nos permite a reconexão. Quanto mais uma sociedade incorpora o fazer artístico, mais evoluída espiritualmente ela será. A partir de oficinas artísticas, surge a conexão: descobrimos o outro; se respeitarmos sua linguagem, valorizando-a, o diálogo se intensifica. O outro se abre, liberando assim a criação. A arte e a cultura humanizam a educação, expandem olhares.
Em 1993, foi criado o Centro Experimental de Artes de Viçosa, com o intuito de levar arte às escolas públicas por meio de oficinas que estimulassem o aprendizado, contribuindo de forma sistemática para a educação e inclusão social. Anos mais tarde, essa ideia se transformou em um programa que se estendeu para toda a Minas Gerais, atendendo cerca de 5 mil crianças por ano. Comemoramos 10 anos de atuação do projeto TIM Arteducação. Isso só foi possível pela parceria e por ideais compartilhados pelas esferas pública e privada com o terceiro setor. Houve avanço significativo na criação de políticas públicas culturais, principalmente ao induzir a melhoria do diálogo entre as áreas cultural e educacional.
A metodologia do projeto trabalha a inclusão sociocultural por meio de oficinas artísticas para crianças e adolescentes da rede pública de ensino, fortalecendo a integração de arte, cultura, educação e ação social. A iniciativa impactou políticas públicas, além de promover a capacitação e gerar oportunidades de trabalho. Assim, são estimulados o aprendizado, a socialização e o resgate da autoestima, além da formação de plateias e o exercício de cidadania.
Nas últimas semanas, percorri 10 cidades onde o projeto está presente para conferir as mostras artísticas incentivadas por ele. Vi muito mais que a mera apresentação de resultados das oficinas. Na verdade, concretizou-se todo o trabalho, permitindo o encantamento e a formação de público. Com temas diversos - do encantador mundo do circo a homenagens a pontos de referência das comunidades, como o Grande Hotel de Araxá e a centenária ferrovia Vitória-Minas -, as mostras conseguiram transmitir a essência da arte-educação. Ou seja, a arte mostrou que é possível construir uma sociedade diferente, modificando vidas e mentalidades.
Como escreveu Alcione Araújo, "essa é a educação que desvela a arte e descobre a cultura, que gera um homem novo, um novo país".
Marcelo Soares de Andrade é diretor de teatro, presidente da ONG Humanizarte e idealizador do programa TIM Arteducação.
Fonte: Estado de Minas, 23/07/11

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